Armando Silva Carvalho — Antero, areia e água
por manuel margarido
O presente poema está evidentemente na origem e anuncia mesmo o livro Anthero Areia & Água (Lisboa: Assírio & Alvim, 2010), trabalho de grande fôlego e intenso diálogo com a obra e a figura do poeta Antero de Quental, livro justamente reconhecido pela generalidade da crítica e distinguido com o Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes, atribuído pela Câmara Municipal de Amarante. Neste longo poema, quase imediatamente publicado antes do livro referido, podemos encontrar já o âmago da poética deste: um largo e íntimo questionamento sobre Quental, que se traduz num questionamento sobre o próprio autor, a sua condição, a sua condição de poeta.
Antero, areia e água
Como todos acabamos, acabaste.
Mas não acabaste como quase todos acabamos.
Sentaste-te num banco de jardim,
Separado pelo mar,
Separado de ti, separado de separações
Que te obrigassem a unir
Os ossos redimidos, os músculos mentais
Desse palácio de ideias, no dizer de Sérgio,
Que durante tanto tempo construíste
E disparaste dois tiros.
Na boca,
Exactamente,
Sem qualquer espécie de retórica.
Na longa sucessão dos anos,
Há muitos que de ti se vão aproximando
Por dever de ofício, por exigência histórica,
Ou por outra natureza qualquer que não convém
Ou vem agora a lume.
Por mim, pois sou eu que estou aqui
Por trás da escrita,
Queria perceber — entre a leitura dos textos
E o que a invenção do tempo me faz chegar às mãos
Que ainda estremecem —
A estranha sedução que me provoca
O que ficou do corpo, que dizem que foi teu,
Impresso numa revista a meu lado
Sobre a secretária.
Um rosto, sobretudo o rosto, pintado por Columbano.
Devo, no fundo, ao pintor
O desejo de morte que me arrasta de súbito, numa carga
Erótica,
Para essa santidade por ti tão apregoada
Em falas sucessivas, em ondas de amor absoluto
E bem supremo.
O meu sexo sempre reagiu
à sublime inércia em que os corpos se expõem
Em mágoa, em desconforto,
E não surge da culpa, mas da ideia perversa
Duma serenidade casta,
Diva (ó tempos tão modelados na ópera)
E rediviva.
Mas não quero que estes versos
Sejam
Uma vez mais o leito onde a ironia corra
Dum suposto sémen
Derramado em vozes de castrados, solitárias farsas,
Preservados delíquios.
Por isso peço perdão ao leitor mal
(ou bem)
Intencionado.
Hoje entrego-me total e mentalmente a Antero.
Direi depois se puder
E em livro
As causas desta minha decadência
Já surda à voz das grandes multidões,
Cansadas também elas
Das palavras que lhes deitam por cima como bombas
Em árias suicidas
No palco da mentira universal.
Como ele também dizia.
Repito:
Entre a beleza funérea
E a pouca areia e água em que vejo afundar-se
A minha vida
Corre a extinta luz dum mundo
Já sem mundos.
E nessa cinza, como um desafio,
Consigo decifrar as pegadas de Antero
A caminho do supremo
Nada.
Carvalho, Armando Silva, Colóquio/Letras n.º 173, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, Janeiro/Abril 2010

«Antero de Quental» [1889], Columbano Bordalo Pinheiro, Museu do Chiado, Lisboa
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