Gabriel Machado — Lamentações 3.0
por manuel margarido
Nunca se conhece tudo, pouco sabemos; nem uma parcela ínfima, sequer. O que é um bem, parece-me, descobrir chama a uma alegria. O nome de Gabriel Machado era-me desconhecido em absoluto, até encontrar um poema, este poema na Agio n.º 1. Escrito que me assombrou pela humildade, que se encerra na sua belíssima formalização, mas fundamentalmente na proposição: um regresso à aceitação da imperfeita possibilidade do real como hipótese de redenção.
Na Agio encontra-se um valente punhado de excelentes poetas e poemas, de origens e vozes diversas. Irregulares? Será sempre irregular a qualidade do que integra uma revista literária. Não entendo a relevância da polémica sobre ruptura / continuidade que se estabeleceu a propósito do surgimento desta revista. Quem nos dera termos muitas e mais. Assim, como esta, diferentes desta, muito bom seria.
LAMENTAÇÕES 3.0
a cada um a sua paixão
ou a imóvel cruz a que prega //
e embora nenhum culto
se abra já à metáfora de um tempo maduro,
há ainda que reconstituir
o traço da memória, os lugares mais remotos
da infância mítica //
para que um ídolo, jeremias,
por fim erga as suas redes e anuncie:
«seremos livres e felizes»
sem nenhum trovão a eclodir-lhe na língua.
Gabriel Machado in, Ágio, Revista de Literatura, n.º 1, Lisboa: Artefacto, Lisboa, 2011
(Nota: o editor de texto embirrou. Não parte as estrofes. Ficam estas assinaladas com o sinal gráfico // até funcionar e ser reeditado)
