Frederico Lourenço — Rua do Século, 79
por manuel margarido
Rua do Século 79
Os gradeamentos das janelas
negam a quem os contempla da rua
qualquer sugestão de vida
a ser vivida por trás das grades.
Os caixilhos de ferro forjado
sugerem locutórios de um convento
da mais ascética austeridade,
como se o espaço (cujo acesso
as grades peremptoriamente vedam)
fosse votado por inteiro a extremos
exacerbados de misticismo e de penitência.
Mas também se pressentem salões escuros,
onde paira sempre o cheiro fresco a encerado,
ou a perfume de rosas e noz-moscada;
paredes revestidas de damasco,
cobertas de grandes telas,
paisagens campestres e naturezas mortas.
Medalhões de talha dourada, segurados
por fitas de seda listrada a duas cores;
silhuetas de damas coroadas de peruca,
fantasmas da corte da Rainha Louca,
móveis nas suas molduras de tartaruga e charão.
Lourenço, Frederico, in “RESUMO, a poesia em 2010″, Lisboa: Assírio & Alvim, 2011, p.53
[originalmente publicado em Santa Asinha e Outros Poemas, Lisboa: Editorial Caminho, 2010]
