As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Verdes são os Cantos — Hugo Milhanas Machado e Bruno Béu

Amanhã, dia 25, na Livraria CE Buchholz – Rua Duque de Palmela, nº 4 – Lisboa, às 21.30h, nova sessão de «Verdes são os Cantos». No e-mail de divulgação enviado pela organização, pode ler-se: «um ciclo mensal que tem como objectivo reunir novos nomes da poesia e da música portuguesa numa sexta-feira de cada mês. O cenário é sempre uma das livrarias do grupo Coimbra Editora. As sessões dividem-se em dois momentos – um recital poético e um concerto. O quinto encontro conta com a presença do poeta HUGO MILHANAS MACHADO e com a música do BRUNO BÉU. Porque o mote destas sessões é a poesia, os poetas e os músicos trarão algumas escolhas de “autores da sua vida” que serão lidos e comentados juntamente com o público.»

 

«Verdes são os Cantos», com Hugo Milhanas Machado e Bruno Béu

 

Do último livro de Hugo Milhanas Machado, As Junções, aqui se deixa o primeiro poema do livro, chamando a atenção dos puristas da poesia que também Ruy Belo escreveu (belíssimo) poema sobre o ciclismo.

COL DE PEYRESOURDE


No dia em que te toquei a trança

tempo tive de ficar de frio na janela

o leite derramava na cozinha

ia muito devagarinho e descia

desenhava um nome no chão


Pensar em ti era só pensar em campeões

ou como fiz ir dentro ver o Tour de França

eu que gostei de ti no dia em que te toquei a trança

e só ficou a marca de leite na planta do pé

as letras brancas e inclinadas nas estradas


Machado, Hugo Milhanas, As Junções, Lisboa: Artefacto, 2010, p. 13

Sophia de Mello Breyner Andresen — Porque os outros se mascaram mas tu não

 

É um poema tão lido, digerido, tão bandeira, tão utilizado, manipulado, instrumentalizado, tão já lugar comum, que nos esquecemos de o ler como se o lêramos pela primeira vez. Mas raios me partam se hoje não me veio à cabeça a tarde toda. E a noite.

Porque os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros usam a virtude

Para comprar o que não tem perdão.


Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados

Onde germina calada a podridão.

Porque os outros se calam mas tu não.


Porque os outros se compram e se vendem

E os seus gestos dão sempre dividendo.

Porque os outros são hábeis mas tu não.


Porque os outros vão à sombra dos abrigos

E tu vais de mãos dadas com os perigos.

Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia de Mello Breyner Andresen

«Chains», by Markus © Markus, via Deviantart (D.R.)