As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Ana Hatherly – um rio de luzes

 

 

Este belo poema de Ana Hatherly é acompanhado (ou acompanha, em diálogo?) por uma ilustração que não escapou ao olhar do artista plástico Manuel San Payo. A ilustração bem podia chamar-se «um rio de luzes», como o poema. Trata-se do trabalho de um garoto sérvio, chamado Luka. Parabéns ao autor… e ao divulgador.

Um rio de luzes

 
Um rio de escondidas luzes

atravessa a invenção da voz:

avança lentamente

mas de repente

irrompe fulminante

saindo-nos da boca

No espantoso momento

do agora da fala

é uma torrente enorme

um mar que se abre

na nossa garganta

Nesse rio

as palavras sobrevoam

as abruptas margens do sentido

Hatherly, Ana, O Pavão Negro, Lisboa: Assírio & Alvim, 2003

 

 

© Luka (D.R.)

(clique para ampliar)

 

 

 

Adília Lopes – Louvor do lixo

 

Louvor do lixo

 

para a Amra Alirejsovic
(quem não viu Sevilha não viu maravilha)

 

É preciso desentropiar
a casa
todos os dias
para adiar o Kaos
a poetisa é a mulher-a-dias
arruma o poema
como arruma a casa
que o terramoto ameaça
a entropia de cada dia
nos dai hoje
o pó e o amor
como o poema
são feitos
no dia a dia
o pão come-se
ou deita-se fora
embrulhado
(uma pomba
pode visitar o lixo)
o poema desentropia
o pó deposita-se no poema
o poema cantava o amor
graças ao amor
e ao poema
o puzzle que eu era
resolveu-se
mas é preciso agradecer o pó
o pó que torna o livro
ilegível como o tigre
o amor não se gasta
os livros sim
a mesa cai
à passagem do cão
e o puzzle fica por fazer
no chão

Lopes, Adília, A mulher-a-dias, Lisboa: & etc, 2002

© Paulo César, via Olhares, fotografia online, (D.R.)

 

Links Relacionados:

O poema, lido pela autora:

Site sobre Adília Lopes (poemas, entrevistas, críticas, links diversos)

O (novo) blogue da & etc

 


© Capa de Bárbara Assis Pacheco