Margaret Atwood – O Momento
por manuel margarido
Há coincidências que não se devem desprezar. Em 24 horas, mão amiga faz-me chegar o poema The Moment, de Margaret Atwood; o suplemento Ípsilon do jornal Público publica rara e estimulante entrevista de Helena Vasconcelos à poetisa e romancista; finalmente, na procura de uma citação adequada para responder a um comentário a post anterior, deparo-me com uma frase da escritora canadiana, em epígrafe, num dos meus blogues favoritos. Respeitem-se as coincidências, agradeça-se o poema traduzindo-o, acto de pouco glorioso resultado; louve-se ainda o trabalho de Helena Vasconcelos.
The Moment
The moment when, after many years
of hard work and a long voyage
you stand in the centre of your room,
house, half-acre, square mile, island, country,
knowing at last how you got there,
and say, I own this,
is the same moment when the trees unloose
their soft arms from around you,
the birds take back their language,
the cliffs fissure and collapse,
the air moves back from you like a wave
and you can’t breathe.
No, they whisper. You own nothing.
You were a visitor, time after time
climbing the hill, planting the flag, proclaiming.
We never belonged to you. You never found us.
It was always the other way round.
Margaret Atwood
O Momento
O momento quando, após muitos anos
de trabalho duro e uma longa travessia
te encontras no centro do teu quarto,
casa, meio acre, milha quadrada, ilha, país
sabendo por fim como lá chegaste,
e dizes, eu possuo isto,
é o mesmo momento em que as árvores desatam
os seus macios braços em teu redor,
as aves retiram a sua língua,
as falésias fissuram e colapsam,
o ar vem devolvido de ti como uma onda
e tu não consegues respirar.
Não, murmuram eles. Tu não possuis nada.
Tu foste um visitante, uma e outra vez
subindo a colina, cravando a bandeira, proclamando.
Nós nunca te pertencemos.
Tu nunca nos encontraste.
Foi sempre o contrário.
Ligações relacionadas:
Entrevista de Helena Vasconcelos a Margaret Atwood (Ípsilon, 20 de Agosto de 2010)
