David Mourão-Ferreira – Matura idade
por manuel margarido
Os dois sonetos com que David Mourão-Ferreira se estreia na publicação de poesia na Colóquio / Letras (n.º 2, Junho de 1971, publicação de que viria a ser marcante director); poemas mais tarde integrados no livro com o mesmo título (1973).
Matura idade
I
Um silvo Um baque Um cheiro a gasolina
Esse que fui e nunca mais retrato
tão à beira do rosto e do regato
onde tudo por fim não se ilumina
Ó deusa Ó cabra Ó mãe Ó assassina
À dúzia tive o lote mais barato
Cada rosto uma ruga no meu fato
cada voz uma ruga uma ruína
E este avião em chamas no deserto
longe tão longe cada vez mais perto
E a gasolina agora já nas veias
Olha o museu de súbito incompleto
Perdeu-se o rasto a quem roubou o feto
O regato esvazia-se às mãos cheias
II
Às mãos cheias esgota-se o regato
Mas que mão Mas que bêbeda assassina
as águas poluiu de gasolina
e manchou para sempre o meu retrato
O osso a carne a pele o pêlo o fato
O que estiver mais perto da ruína
é que neste momento me ilumina
pra que o rasto se venda mais barato
Verei por fim dentro de mim o feto
Sufocarei no cais do Incompleto
o silvo que antecede as marés-cheias
Julgava-me tão longe E tão perto
vem do deserto o eco do deserto
que se prolonga ao fim das minhas veias
Mourão-Ferreira, David, Matura Idade, Lisboa: Arcádia, 1973

"Deserted Men" © Nesten (polaroid dessaturada) via Deviantart