Como voas agora, ave tão leve?
por manuel margarido
Como foste nascer com o coração trocado, tu que tinhas o coração tão certo?
Como é que cresceste bebé azul, coisa parva, tu que eras verde de ervas e de árvores, das algas, do tejo do montijo, verde esmeralda, verde do sporting?
(Como se trocaram as cores, quando devias ter amadurecido do verde ao ouro?)
Como era ser corpo ao contrário e não lhe querer mal? Onde escondias força?
Como aprendeste a viver com a dor, a tua noiva negra? E a enganá-la, a encorná-la quando podias, com um gole de vinho, com a obstinada ideia do surf?
Como te atrevias a querer tanto viajar, amarrado que estavas às horas dos tubos, à distancia dos hospitais, ao comprimento de uma cama que escolheste solitária, terreno de combate íntimo?
Como é que desenhavas com precisão tão milimétrica, com as tuas mãos pequenas?
Como erguias a vida pelos ombros com essas tuas mãos tão pequenas e preciosas, e a querias viver toda, comê-la toda, a gaja que te amarrava como a um pássaro numa armadilha? Como é que desejavas tanto a puta da vida? A puta que não te queria?
Como conseguiste não gritar todas as imprecações possíveis contra deus? Como é que o aceitaste porque, não o aceitando, te negarias?
Com é que o teu coração trocado trocou as voltas do coração dos outros e te fez ser amado? Que truques escondidos tinhas?
Como é que conquistaste o amor da mulher destacada? Que encantamentos de afeição conhecias?
Como escreveste sem ironia o último irónico acorde, carregado fortissimo: “Um clássico. EXCELENTE!!!” as tuas últimas palavras no facebook, quando ela te «deu» o what a wonderfull world?
(Como é que a gente te tira do facebook?)
Como nos foste morrer, se eras a vitória do dia contra a morte?
Como voas agora, pardal tão leve? Onde foste esconder-te no céu?
Conta-nos, conta-nos que estamos a tempo de te ouvir.
Conta-nos tudo, Jorge.
em memória do Jorge Baúto – (1971 – 2010)