“Vincent” – Tim Burton
O primeiro trabalho em stop-motion de Tim Burton ( ←que tem um fabuloso site, basta clicar sobre o nome). Conta a história de Vincent Malloy, um menino de 7 anos que quer ser como Vincent Price. A narração é do próprio Price.
O primeiro trabalho em stop-motion de Tim Burton ( ←que tem um fabuloso site, basta clicar sobre o nome). Conta a história de Vincent Malloy, um menino de 7 anos que quer ser como Vincent Price. A narração é do próprio Price.
O poema musicado e cantado pelos Guta Naki, no post anterior. Sequências (não) acidentais.
Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava c’um homem cego
E ia morar para a Estrela.
Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.
E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.
Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.
Comunicado pelo Engenheiro Naval
Sr. Álvaro de Campos em estado
de inconsciência
alcoólica.
Álvaro de Campos, “Livro de Versos” - Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993.

© daVid, Olhares, fotografia online
Ainda ecos da sessão / evento / sei lá como catalogar, que teve lugar na noite de 20 para 21, no Teatro Casa da Comédia. Apresentados pelo anfitreão Filipe Crowford, nesta fotografia (descaradamente roubada no Facebook, da autoria de Rita Nunes), da esquerda para a direita: Miguel-Manso, Ana Salomé, Hugo Milhanas Machado, Filipa Leal, Vasco Gato e Catarina Nunes de Almeida. Seis autores com vozes poéticas muito distintas, mas tendo em comum uma maturidade e intensidade notáveis (aqui apenas o gosto determinará preferências). Manuel Cintra encerrou (ele que afirmou preferir abrir) a festa. Entre leituras, gostei particularmente de ouvir os Guta Naki, grupo que não conhecia. Entre textos de Álvaro de Campos e Henry Miller, pelo menos uma cantora de uma expressividade vocal e cénica surpreendentes.
Na muito mais que agradável noite de poesia e música Os Poetas da Meia Noite, que aqui se anunciou, Miguel-Manso é o último poeta a dizer os seus textos. Di-los (muito bem de resto, num tom desprendido, quase casual) e à medida que os vai lendo deixa cair as folhas manuscritas no chão. No final, quando os autores e os músicos saem, chama-se-lhe a atenção para os papéis deixados espalhados, aparentemente esquecidos. O Miguel encolheu os ombros, como quem diz «fiquem com eles». Eu, dando largas ao meu lado saloio, peguei numa das folhas, com um poema do último livro do autor, “Santo Subito” (sendo que o subito não é gralha). Continuando o parolo episódio, pedi-lhe que me identificasse o manuscrito, expressão rebuscada para o piroso gesto de pedir um autógrafo. Sendo o Miguel um senhor e um senhor gentil, assim o fez. E aqui se deixa, transcrito o poema como vem composto no livro… e a folha em que o mesmo poema foi escrito para ser lido em público.
Na noite de 20 para 21 fiz bem em andar aos papéis. Obrigado, Miguel-Manso.
(exegetas: aqui tendes material para aturados estudos sobre as variações da grafia do poema, as letras emendadas, a inclinação dos versos, a questão das maiúsculas e das minúsculas, coisas capaz de proporcionarem preciosos estudos no “Centro de Documentação Miguel-Manso”, “Casa de Miguel-Manso”, “Fundação Miguel-Manso”, a ser inaugurada possivelmente em Santarém, certamente em 2079)
EM ÉVORA, UM TERRAÇO
quando o nível das águas subir
(não se sabe ainda quantos metros)
e se apagarem certos lugares: a sombra
do limoeiro da infância
a praia onde todo o Verão cabia
e terminar submerso tudo o que foi raso e sacro
então que pelo menos permaneça intacto
aquele terraço em Évora
MIGUEL-MANSO, “Santo Subito”, Lisboa: Os Carimbos de Gent, Março de 2010 (edição de autor)
Acaba de me chegar às mãos o n.º um da cràse – “revista de literatura emergente”, março de dois mil e dez, 250 exemplares, um luxo comparados com os 60 do número zero. Um luxo, também, a lista de autores e a fasquia qualitativa dos textos publicados, entre poesia e contos, sendo esta claramente uma edição mais forte que a primeira zero. Como não poderei divulgar todos (e de quase todos me apeteceria deixar um poema aqui) escolherei três ou quatro autores. E de escolha falo também com alguma propriedade.
E começo pela Helena Carvalho (Nazaré, 1982), poeta muito da predilecção deste sítio. (a autora: Licenciada em Filosofia e pós-graduada em Poética e Hermenêutica, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. É actualmente professora no ensino secundário. Seleccionada para o Concurso Nacional Jovens Criadores 2009, na área de literatura, tendo publicado na Colectânea Jovens Escritores 2009. Colaborações dispersas em revistas literárias. Autora do blogue a luz da noite.).
Helena Carvalho apresenta, neste um da cràse, um conjunto de quatro fortíssimos poemas. Opta-se pelo primeiro deles, seguindo o critério mais neutro.
Foto-verbo-grafia
Interromper o branco da página como a cegueira branca dos olhos.
As palavras são folhas que se evolam da gravilha rasteira dos pátios
em fins de tarde outonais.
Uma imprevista aragem inicia-as na arte obscena do movimento –
um deslizar lânguido em pequenos sopros;
uma penetração violenta em remoinhos de pó, nojo e sentido.
Esperar a luz projectada que nunca chega inteiramente aqui.
A claridade desmedida adere à matéria urgente da visibilidade,
primeiro nos olhos
depois na ressonância incorpórea das películas. Cumpre-se a luz
numa câmara escura,
exposta na contenção profana das imagens planas e nas quatro dimensões
das pedras angulares.
Acontecer-nos a gestação das horas fragmentadas
dos quadros repetidos até à negação da sua aura.
Um sentido a rebentar na mão pueril e espantada,
como duas pernas de mulher prematuramente abertas
em posição de parto.
Nascer a palavra como uma fotografia em meio-tom
a mover-se pela sombra de si, no contraste abismal
entre a luz que se capta e a que ainda não chegou.

© Lia, Olhares Fotografia Online (D.R.)
Então recebe-se um “comentário” assinado por “Abóboras Mecânicas” e torce-se logo o nariz; e o comentário pede a divulgação de um evento e revolve-se a gente logo na cadeira; e o comentário remete para o blogue “Ajavardamento Poético” e fica-se à beira de apagar a coisa. Pelo sim pelo não vai-se ver. E a surpresa é grande. Porque “Abóboras Mecânicas”, num divertido jogo de deslocação das laranjas, é o nome de guerra de um grupo de alunos, mais concretamente alunas, todas raparigas (que andais fazendo, rapazes, a assobiar o adágio de que a poesia é coisa de meninas?). Alunas do 12ºE da Escola Secundária do Padrão de Légua. Ana Cardoso, Ana Teles, Bruna Gonçalves, Isabel Piano e Mafalda Gomes, para que conste, o anonimato fica-lhes tão mal. E então visita-se o blogue, o tal Ajavardamento Poético, e pasma-se a sério. É um belíssimo sítio de partilha e vivência da poesia, com surpreendente critério e notável atenção à poesia, com forte focalização nos “novos autores”, que se percebe lidos com intensidade e divulgados com gosto. Ou, como se diz no perfil do blogue: «No âmbito da disciplina de Área de Projecto as Abóboras Mecânicas fazem surgir um espaço onde todos podem javardar. Um espaço asseado porém. Um espaço onde se sublimam as palavras e os dizeres. Um espaço de voo. Convida-se toda a Comunidade Escolar a entrar. Sirvam-se da nossa língua sirvam-se do que vos grita o íntimo sirvam-se deste blogue.». Um espaço asseado, sim. Que se atreveu, e quase se escapava a finalidade do post, a esta proeza: organizar um evento que reunirá um valoroso grupo de poetas na próxima quinta-feira, dia 25 de Março, pelas 15h, na Casa-Museu Abel Salazar em São Mamede de Infesta. Não carece de mais informação, esta notícia de carácter publicitário: até o cartaz, em baixo, pede meças a muitos trabalhos profissionais.
Mas suscita uma sugestão: quem questiona as novas tecnologias (e a perniciosa internet) como perigo potencial para a aprendisagem, vá ajavardar as ideias no blogue referido. Talvez elas, as ideias, fiquem mais límpidas. Ainda uma outra interrogação: poderá um professor de Língua Portuguesa, que se limite a cumprir a sua função by the book, estimular o gosto pela poesia que as possibilidades de uma plataforma como um blogue colectivo oferece? Talvez. Mas por que não os vemos mais, a eles professores, no lugar de dinamizadores e/ou participantes? São tão poucos os que o fazem.
(Felicitem-se, já agora, os poetas cúmplices com estes “Padrões Poéticos & Léguas de Poemas:” Amadeu Batista; Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Jorge Velhote, Nuno Dempster, Sara Canelhas, Teresa Tudela, Viale Moutinho, Vicente Ferreira da Silva).
(clique para ampliar)
No peito, a manivela ferrugenta
que faz abrir a respiração
começou a emperrar
e o corpo aprendeu rapidamente:
o suor como se a roupa
fosse um antídoto.
O belo cavalo branco de cascos
impretéritos avançou
então
pelas vértebras
mas não impediu que a imagem
fosse real.
Cordas de piano
por onde trepam os assassinos
e onde por vezes
se enforcam
antes de alcançarem a janela,
o repto impune dos que dormem:
vela-me.
GATO, Vasco, “Omertà”, Famalicão: Edições Quasi, 2007

© Paulo Madeira, Olhares Fotografia Online (d.r.)
Claro, nestes tempos de “Alice no País das Maravilhas” (surge et ambula, Tim Burton dixit), a Vogue lembrou-se do material que tinha na sua edição de Dezembro de 2003. Uma ideia aparentemente simples: pegar em excertos do texto, numa única modelo (Natalia Vodianova, em registo muito Lolita) e num conjunto de prestigiados estilistas (ou designers, como se preferir) de moda. Cada um deles veste Alice e surge, quase sempre, na composição. Leibovitz trata de criar o conjunto. Simples? Aparentemente, disse-se. O jogo combinatório entre a textualidade, a encenação, as criações de vestuário, a participação dos designers, o cenário e o olhar da fotógrafa criam um vasto campo de combinações semânticas, bastante estimulante. Pode ser vista, a referida matéria, nesta galeria. Na imagem, a fotografia produzida para a criação de Tom Ford.

"I wonder if I shall fall right (...)", estilista: Tom Ford © Annie Leibovitz
AS VOZES
A infância vem
pé ante pé
sobe as escadas
e bate à porta
– Quem é?
– É a mãe morta
– São coisas passadas
– Não é ninguém
Tantas vozes fora de nós!
E se somos nós quem está lá fora
e bate à porta? E se nos fomos embora?
E se ficámos sós?
PINA, Manuel António, Nenhuma palavra e nenhuma lembrança, Lisboa: Assírio & Alvim, 1999

© Débora Klempous, Olhares, Fotografia Online
28
Era uma vez duas serpentes que não gostavam uma da outra. Um dia encontraram-se num caminho muito estreito e como não gostavam uma da outra devoraram-se mutuamente. Quando cada uma devorou a outra não ficou nada. Esta história tradicional demonstra que se deve amar o próximo ou então ter muito cuidado com o que se come.
HATHERLY, Ana, 351 Tisanas. Lisboa: Quimera (1997)

ilustração infantil, inspirada no livro “T.J.’s Desert Surprise” de Emily A. York
O MUNDO COMO REPRESENTAÇÃO
“O mundo é a minha representação.”
Que tipo de imagem
eclode na mente
quando, de noite, um cão uiva,
como se a sua carne
não fosse carne da sua carne,
mas um véu espesso
que cobre a dor
e a torna mais intensa?
Uma janela abre-se de par em par,
e eu persigo os sulcos e a ira
desse cão mirífico,
desse cão que existe algures
para lá do ver.
A noite que ignorei torna-se visível,
mas não a ira, a ira absoluta do cão,
ainda que os meus olhos
ceguem numa exasperante vontade
de luz.
QUINTAIS, Luís, “Duelo”, Lisboa: Livros Cotovia, 2004.

Francisco Goya, "Perro semihundido" (detalhe) - Museu do Prado (d.r.)