Filipa Leal – A Inexistência de Eva
por manuel margarido
Coloco este livro no cimo de tudo o que li em 2009. Não me interessa se é “o melhor”, “a grande revelação”. O que conta: Filipa Leal agarra no mais primitivo do ser, nos mais primordiais arquétipos culturais do ocidente e inaugura uma escrita, uma projecção onírica para lá do nosso tempo cujo alcance levará muito tempo a ser integrado: pelos leitores; pelas academias; pelos editores, pelos bibliotecários. Pouco importa, igualmente, serem estes poemas trinta e um textos (poemas/textos, a questão é irrelevante). Já de tomar nota: apenas fazem sentido, os textos, se lidos todos, de seguida, em sequência. Em mim, depois de os ler, instalou-se um grande silêncio. Branco.
Uma referência à cuidada edição da Deriva e à capa, com uma fotografia de Mafalda Capela que, bem vista, quanto melhor vista, mais nos abençoa de perplexidade.
(Agradeço a quem me deu a conhecer, ainda que lendo eu cego de luz.)
[Editam-se aqui os cinco primeiros textos, apenas para revelar, a quem não leu, um pouco da (a)ventura de mergulhar na obra. Não se edita todo o livro porque o editor me perseguiria a tiros de caçadeira. Retribuo informando o venturoso leitor, que ainda existem livros em venda, no site da editora, ou em algumas livrarias especializadas em poesia]

fotografia da capa: Mafalda Capela (d.r.) - digitalização: CercARTE (blogue)
ESTE LIVRO FOI ESCRITO HÁ MUITO TEMPO.
Era uma mulher que estava dentro de uma sala muito branca.
Ouviu: – Não fujas. Não esqueças.
Era uma mulher lívida de medo de não conseguir esquecer.
*
À volta da sala, havia um pomar redondo que a envolvia de maçãs
avermelhadas, difusas. Ela estava lívida e suja, entre a castidade
e o remorso.
Ouviu: – Esquece o arrependimento. Fica.
*
Ao redor do pomar, existira um rio que secara nos últimos
anos. Se o seguisse, junto à margem, em linha curva e longa,
encontraria uma cidade desconhecida. Embora nenhuma cidade
seja desconhecida se soubermos onde está.
Ouviu: – Perder-te-ás na ausência
de água do rio.
*
Não havia um único espelho na sala. Ela não sabia o que era o
princípio e o fim. Desconhecia os conceitos de vida e de morte.
Nunca medira a sala, nem o pomar, nem o terror. Se desejasse,
abriria a porta.
Ouviu: – Assustar-te-á a existência
de dia e de noite.
*
Sabia o seu nome. Chamava-se Eva. Nunca questionara. Porque
haveria de questionar um nome simples e breve? Desconhecia o
texto bíblico, e o simbolismo das palavras. Se se chamasse mar,
ou cálice, ou manhã, não o questionaria.
(…)
LEAL, Filipa, “A Inexistência de Eva” , Porto: Deriva Editores, 2009