Mário-Henrique Leiria – Contos do Gin-Tonic

por manuel margarido

Sendo sexta-feira, desanuvie-se com a imparável verve de Mário-Henrique Leiria, escritor ligado ao movimento surrealista, activista político do ‘reviralho’, exilado, editor, e tudo e tudo. Publica a sua obra mais conhecida Contos do Gin-Tonic em 1973, na Editorial Estampa. Lamento apenas ter a 3.ª edição, de 1976. A capa da primeira era muito bonita! [Ocorre-me uma pergunta... se um escritor de nomeada publicasse este poema amanhã, na terceira página do Público, ou do Expresso - fosse impossivelmente o Lobo Antunes ou o Saramago e o impacto seria maior - como reagiriam os homens que temos no poder? Nos tempos que correm, as susceptibilidades parecem-me roçar a intolerância. E anda por aí muito medo.]


GIN SEM TÓNICA

Uma garrafa de gin

estava a preocupar

o pescador

a garoupa e o rodovalho

não tinham aparecido

pró jantar

que fazer?

telefonou ao ministro

da Pesca e do Trabalho

mas o ministro

estava a trabalhar na cama

com a mulher

foi então

que a garrafa de gin

sugeriu discretamente

porque não

telefonar ao presidente?

telefonaram

o presidente da nação

estava em acção

na cama

com a mulher

nessa altura

até que enfim

encontraram a solução

o pescador

foi para a cama

com a garrafa de gin

LEIRIA, Mário-Henrique, Contos do Gin-Tonic, 3.ª edição, Editorial Estampa, 1976.

Savador Dali. Frame do storyboard do filme 'Destino' © Walt Disney Pictures

Savador Dalí. Frame do storyboard do filme 'Destino' © Walt Disney Pictures

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