Poesia Portuguesa (25) – Sophia de Mello Breyner Andresen
por manuel margarido
De tão conhecida a sua obra, apeteceu-me publicar um poema singularizado, introdutório de O Livro do Nómada Meu Amigo, de Ruy Cinatti, poeta que aqui chegará. No poema, Sophia evoca o amigo ‘desaparecido’ em Timor, escreve em louvor da sua ausência. Uma ausência que provoca esperança, porque significa ‘não ficar’ para ‘Destruir com amargas mãos seu próprio rosto’. Leia-se: viver no sufocante mundo salazarista.
PARA RUY CINATTI
AUSENTE EM TIMOR E ALGURES
APÓS CINCO ANOS SEM NOTÍCIAS
Aquele que partiu
Precedendo os próprios passos como um jovem morto
Deixou-nos a esperança.
Ele não ficou para connosco
Destruir com amargas mãos seu próprio rosto.
Intacta é a sua ausência
Como a estátua de um deus
Poupada pelos invasores de uma cidade em ruínas.
Ele não ficou para assistir
À morte da verdade e à vitória do tempo.
Que ao longe,
Na mais longínqua praia,
Onde só haja espuma, sal e vento,
Ele se perca, tendo-se cumprido
Segundo a lei do seu próprio pensamento.
E que ninguém repita o seu nome proibido.
Janeiro de 1956
Sophia de Mello Breyner Andresen, poema de abertura, in, Ruy Cinatti, O Livro do Nómada Meu Amigo, Colecção Poesia e Verdade, Guimarães Editores, Lisboa, 1981 (3ª edição).

'Entardecer' - Ilha de Jaco, Timor-Leste © Rita Leal, Olhares, Fotografia Online